quarta-feira, 7 de março de 2018

Diário # 11 - Descanso Sagrado





Sempre dei muita importância ao descanso das minhas filhas. Na minha opinião sopa e descanso são fundamentais para as crianças, e todos nós. Considerando tudo o que vemos à nossa volta há que ser consciente, principalmente com e pelos nossos filhos que vieram para um mundo onde, crescentemente, se tem que fazer mais em menos tempo, aliando o stress ao que se come, que por mais puro que pareça, é quase sempre processado ou alterado genética ou quimicamente. Daí que sinto que tenho que fazer tudo pelas minhas filhas, mesmo que isso implique que possa ser “menos bom para a mãe”.

Talvez eu seja demasiado rigorosa com o sono delas, mas as crianças de hoje não são as crianças de ontem, hoje são mais energéticas, activas, ansiosas, e vivem num mundo muito mais agitado e exigente. Por isso, o sono e as sestas são uma espécie de carga para continuarem concentradas e interessadas em descobrir, aprender e melhorar a memória. Além disso não há melhor para a saúde delas do que o descanso, e para os pais também claro :) Mas, enquanto a criança dorme, o corpo produz hormonas e anticorpos, regula o metabolismo, sintetiza proteínas, renova as células e liberta 90% da hormona de crescimento. Ou seja, enquanto dormem as horas necessárias, as crianças reforçam o sistema imunológico, crescem e desenvolvem-se de forma saudável. Por isso, mesmo depois dos dois anos até pelo menos aos 4/5 anos, uma hora e meia de sesta, pelo menos, depois do almoço, continua a ser tão importante.

Além disso ajuda muito às mães para carregarem a bateria quando se sentem exaustas. O que é muito importante em caso de anemia, cansaço, etc. Uma mãe precisa de descansar também para cuidar dos filhos.

Uma pequena história pessoal:

Há dezassete anos atrás, a minha mãe foi diagnosticada com cancro da mama, o médico disse-lhe com estas palavras: “Tem os dias contados”. Quando ouvi aquilo, eu tinha 22 anos, o meu mundo colapsou, o desespero, a impotência que eu sentia eram inexplicáveis. A minha mãe sofria em silêncio, o meu pai sofria em silêncio, eu, muitas horas, me escondi no carro a chorar aterrorizada, para a minha mãe não sofrer mais por me ver sofrer. Uns meses depois de ser operada, fazer radio e quimio o médico disse que tinham conseguido remover as ramificações, disse-lhe ainda que se estivesse bem dali a 4 anos que a considerava curada, porque a probabilidade de tudo voltar era enorme. A minha mãe lutou pela vida e durante 4 anos ela contou os 1460 dias, um a um, na esperança de ouvir que estava curada do cancro da mama. Esta experiência foi traumática para todos nós, não há nada pior no mundo do que perder um filho ou uma mãe, eu vivi 1 ano de desespero e medo de a perder e 4 anos de medo, confusão e esperança. Desde a operação, durante esses 4 anos e, até hoje, a minha mãe fez sempre o que o médico lhe recomendou como sendo o mais importante para todos: SOPA e DESCANSO todos os dias. 

Talvez por isto eu seja tão rigorosa. As experiências moldam-nos. Por isso, desde que nasceram até hoje, as minhas filhas sempre dormiram a sesta depois do almoço. Em 5 anos posso contar apenas com os dedos das minhas mãos, as vezes que não o fizeram e a forma agitada como ficaram depois. É verdade que fiquei privada de sair muitas tardes, praticamente todas durante estes 5 anos para elas dormirem tranquilas. Não dormem a sesta em mais lado nenhum, claro, são crianças, o mundo é um mistério para descobrir. Nunca fui capaz de ir passear com elas pequenas até ao shopping e deixá-las dormir no carrinho, com as luzes dos shoppings, o ar condicionado e a estrutura óssea delas, em fase de desenvolvimento, toda torta no carrinho. Nunca o fiz, sempre dormiram na caminha delas e as poucas vezes que não o fizeram, foram as vezes que fomos de viagem ou passeio com elas e acabaram por adormecer no carro, nas cadeiras com a almofadinha do pescoço, mas essas sestas quase não contam porque acordam facilmente e não é um sono descansado… Todos os dias se deitam às 21h e acordam às 8h, às vezes mais cedo. Por isso, no total, dormem quase 13h por dia como é recomendado.

Quando foram para o quarto delas a primeira vez:

A mais velha foi para o quarto dela dormir com 3 semanas, os nossos quartos têm as portas encostadas e, além disso, tinha uma webcam para a poder ver sempre na minha cama, muitas noites adormeci de óculos na cara a olhar para ela no ecrã do intercomunicador a dormir. Porque quando são pequenos tudo nos assusta, um soluço, um espirro, um balbúcio, é mesmo assim. Talvez ela tenha ido muito cedo para o quarto dela, mas o meu marido trabalhava até muito tarde no nosso quarto, fazendo sempre pequenos barulhos, computador, papéis, impressora e a luz na secretária dele, pelo que achamos melhor para ela, para que tivesse um sono mais descansado e silencioso de noite, o que foi bom porque tornou-a mais independente a adormecer. A mais nova já foi para o quarto dela aos três meses, porque como ía dormir no mesmo quarto que a irmã, que tinha ainda 2 anos, achamos que seria melhor assim, para não acordar a mais velha de noite. Foi a melhor solução. Aos 3 meses mamava à meia-noite e depois dormia 6 a 7 horas seguidas e, nessa altura, levamos o berço dela para ao pé da irmã.

Rotinas para o soninho:

As horas de dormir nunca variaram muito. Para eles perceberem devemos manter as horas sempre certas com uma variação curta de meia hora se for necessário. Nada de tv ou ecrãs com luz, ginástica, loucuras na hora de ir dormir ou tentarem adormecer no sofá.

Não os adormecer ao colo, não os abanar no colo, nem dar palmadinhas, nem deixá-los dormir em baloiços de bebé. Se se habituarem desde logo a dormir na cama deles, não vão querer outra coisa depois. Eu sei que é difícil porque sabe tão bem tê-los no colo a dormir, adormecê-los no colo, eu também gostava de o ter feito mas depois pode acontecer que ficam dependentes disso e há situações de mães que têm que adormecer os filhos ao colo já com 3 anos de idade, por isso, e até pela coluna dos bebés devemos pô-los nas caminhas deles.

De noite dormem sem luz nenhuma e no máximo silêncio possível e de dia deixo um terço da persiana aberta para entrar a luz natural do dia e com os sons naturais do dia.

Ao deitá-las diziamos boa noite, beijinhos, miminhos e cantava baixinho aquela música “Boa noite, Vitinho” do Paulo de Carvalho, ainda hoje me pedem :) Tomara que houvessem músicas de boa noite assim agora… Depois saíamos do quarto e encostávamos a porta.

Se chorassem deixávamos chorar sempre, pelo menos, 10 segundos antes de lá irmos e dizia com firmeza mas carinhosamente “Está na hora de dormir”, um beijinho e saía. Se voltassem a chorar aumentava o tempo de demora, tipo 20 segundos, 30 segundos, e fazia sempre o mesmo e foram-se habituando em poucos dias.

Agora é igual, uma tem 3 anos a outra 5, quando chega a hora de ir dormir queixam-se que não querem mas eu digo que tem que ser e elas vão, cubro-as, dou beijinho e digo até já se for na sesta e saio, fecho a porta e elas dormem tranquilas. Às vezes demoram porque se põem a cantar e a falar, mas depois de 2 vezes a dizer “Hora de dormir”, elas viram-se e dormem, até porque nota-se que querem dormir.

A mais pequena, entre os 7 e os 9 meses, mais ou menos, passou uma fase em que lutava contra o sono, ela queria descobrir o mundo e lutava para não adormecer, era engraçado, mas com os mesmo hábitos ela acabou por perceber que tinha que dormir.

Horas e horários

Este foi um dos assuntos que mais me deu dúvidas quando tive a minha primeira filha. A insegurança de não as alimentar bem de noite, de bolsarem de noite, de não saber se choravam por fome ou cólicas. Felizmente tudo correu bem. Claro que cada mãe ajusta à sua vida, mas mais ou menos, será assim:

1º mês:

Elas basicamente dormiam :) Acordavam de 3 em 3 horas para mamar, brincava um pouco com elas e uma hora depois já estavam a dormir.

Dos 2 aos 3 meses:

Mas depois do 1º mês elas já não acordavam a meio da noite para mamar e o pediatra disse que não as acordasse, se estivessem tranquilas, então se desse de mamar à meia-noite depois só dava de novo às 7h por exemplo.

Dos 4 aos 6 meses:

Depois dos 4 meses elas dormiam das 20h às 8h da manhã mais ou menos (12 horas) com uma paragem à meia-noite para lhes dar o leite e mudar a fralda, sem as despertar. Depois, de dia, dormiam 3 sestas de 1h cada. Uma de manhã e duas à tarde (uma depois do almoço, a outra por volta das 17h).

Dos 9 aos 24 meses:

Dormiam das 21h às 8h da manhã mais ou menos (11 horas) com uma paragem para lhes dar o leite e mudar a fralda por volta da meia-noite, sem as despertar. Duas sestas de dia, das 10h às 11h e das 13.30 às 15.30.

NOTA: Eu mantive este hábito de beberem leite à noite até aos 2 anos, mas há quem não o faça. Quando fizeram 2 anos e 3 ou 4 meses deixei de lhes dar o leite de noite e passaram a dormir das 21h às 8h seguidas, até porque muitos defendem que para algumas crianças o leite é pesado, pode dar pesadelos e sono menos descansado, para além dos açúcares que fazem mal aos dentinhos se não forem escovados depois disso e para lhes dar o leite sem as despertar não podia lavar-lhes os dentes a dormir.

Dos 2 aos 5 anos:

Dormiam das 21h às 8h da manhã mais ou menos (11 horas). A sesta da manhã foi eliminada e passaram a dormir apenas a sesta da tarde depois do almoço. Das 13.30 às 15.30 mais ou menos.

NOTA: Aos 5 anos há crianças que já não sentem necessidade da sesta. Contudo, se forem crianças muito activas e se notarem que a meio da tarde começam a ficar irritadas e impacientes, é porque precisam deste pequeno momento de descanço depois do almoço. Em breve entram no 1º Ciclo e deixarão mesmo de o poder fazer. Por isso em vez de pensarmos que têm que se adaptar a deixar de dormir a sesta, penso que devemos pensar antes em deixá-los brincar tudo e descansar tudo, sempre que podem e sempre que precisem, enquanto ainda o podem fazer.

As minhas filhas habituaram-se desde cedo a dormirem no quarto delas, sem distrações, luzes, músicas ambientes, sem estimulações. Neste momento, deitam-se quando chega a hora de dormir, às vezes tentam dar-me a volta e atrasar a dormida uns minutos, mas sabem que não vai valer a pena, porque o descanso é essencial e “tem que ser”. Assim que se deitam, mal saio do quarto e encosto a porta, elas sossegam imediatamente e adormecem muito rapidamente.

Opinião como Mãe e Professora:

Ao longo destes anos tenho visto algumas coisas boas, menos boas e más, como é óbvio. Mas falando apenas acerca deste assunto do descanso. Tive muitos alunos entre os 6 e os 7 anos que, durante o recreio discutiam entre eles assuntos de novelas ou reality shows como se fossem adultos a falar de assuntos importantes. Como eu não vejo novelas nem reality shows não fazia ideia os horários dos mesmos. Um dia perguntei aos miúdos que programas eles viam, e aí fiquei a saber os nomes, as personagens, as histórias e os horáros. Estes programas que eles viam, davam às 23h e à meia-noite. Crianças que tinham que acordar às 7h para irem APRENDER. Crianças que necessitavam de estar despertas, activas e concentradas para receberem a informação e a compreenderem. No início das aulas, alguns pais destas mesmas crianças, falaram comigo para me informar que os filhos tinham dislexia ou hiperactividade e precisavam de um apoio mais individual, um deles tomava inclusivé medicação para andar mais calmo de forma a estar atento. Depois das primeiras semanas e meses com eles, consegui perceber que a dislexia e a hiperactividade não passavam de falta de descanso, que os tornava agitadas e desconcentradas, tornando a compreensão e a aprendizagem muito mais difícil para esses. Por isso, venho pedir, como mãe e professora, não se esqueçam, desligar os ecrãs um ou duas horas antes de ir dormir, isto inclui quaisquer tipo de consolas de jogos no quarto à noite, alguns jogam sem os pais saberem…. Desligar tudo de preferência antes do jantar, deixá-los jantar tranquilos em família e depois preparar para dormir. Estar na cama às 21h para uma criança que acorde às 7h ou às 8h é ESSENCIAL!

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